Não sei qual foi o dia em que decidi que me tornaria alguém melhor se resolvesse defender uma causa. Na verdade nem sei se isso de fato aconteceu ou se minha natureza de "cuidadora dos problemas do mundo" me trouxe até aqui. O fato é que sempre me coloquei mais no lugar dos bichos do que das pessoas. Lembro de minha crise de choro, ainda criança, no parque de exposições porque um cavalo estava preso. Lembro da dor que senti vendo minha cadelinha Tigresa morrendo atropelada enquanto eu ia para a escola. E eles sempre rodearam minha vida. Escopeta é o meu melhor amigo, deitava com as patinhas no quaixo e só levantava quando eu parava de chorar, como se fosse sua obrigação velar pelas minhas tristezas. Fui embora de casa e achei que meu ritmo de vida muito corrido não era compatível com um bicho de estimação. E veio PeRcoço me mostrar que são eles quem nos escolhem. Meu Perquinho foi e voltar pra casa sem encontrá-lo se tornou uma tortura. Até que chegou Lana. Até que chegou Clark. Até que chegou Júnior e vieram as RESgatinhas, Pitty, Chloe e Lara. Minha casa ficou cheia de gatos e meu coração também. Na casa não há mais vagas, mas o coração ainda fica me armando ciladas. A siamesa que ficou 24 horas aqui e se sentia dona da casa foi acolhida em umlar cheio de amor e hoje mora no tal 'céu dos gatos'. Desde anteontem, porém, me vejo às voltas com "Sassá" (assim a chamei, por estar cheia de sarna), que estava na chuva, com fome e toda debilitadinha. Prontamente fiz contatos, e consegui uma vaguinha pra lea numa fundação que acolhe os animais oara adoção depois. Peguei-a na rua, alimentei, fiz carinho naquelarouquinha linda e tão carinhosa, mesmo sabendo que ela dormiria aqui s´ó por uma noite, me rendi aos seus encantos. Então o dia de hoje chegou. Levei-a para o abrigo e ela cheia de medo, passou a dividir gaiolas com um tantão de gatos tão ou mais carentes que ela.
Saí de lá despedaçada!
Aquele olhar assustado, todos aqueles bichinhos de olhar triste, uns se pendurando nas grades buscando um pouquinho de carinho. Outros, como ela, se retraindo num canto. Nem sei descrever o quanto doeu, o quanto ainda me dói. O quão impotente me sinto, o quanto me questiono. Ela vivia na rua, passava fome, mas era livre. Se tivesse sorte, arrumava uns punhadinhos de ração. Se a sorte lhe abandonasse completamente, morreria de fome, fraqueza ou algum mau-trato atroz de gente sem alma. Hoje eu ajudei a selar a incerteza de seu destino. Sassá não deverá morrer de fome, mas nem sei se vai ser mesmo tratada daquela sarna. Mas ela esperará ávidamente pelo carinho e cuidado que teve nessa noite que passou aqui e talvez não tenha. Saí de lá segurando as lágrimas (que agora não param de cair), porque ao invés daquele motorzinho que ouvi todas as vezes que chegava perto, escutei o grunhido assustado de medo dos outros gatos, de estar numa gaiola fria esperando que alguém descubra os encantos escondidos debaixo daquela couraça que a rua criou. Sassá será um dia adotada? A quem foi mesmo que eu tentei salvar?
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