segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Aquela última canção

Veio de repente a notícia de que Americano - O Negão - havia morrido. Eu estava em Itabuna e na semana anerior, já sabendo que eu ia para lá, ele cantou e tocou violão pra mim, como de costume quase sempre que estava na casa de minha mãe. Desde ontem tento lembrar qual foi a música naquele dia.Aquela última canção.
Dora já era de praxe. A primeira música que tocou, na primeira vez que pegou num violão após a morte (tão dolorosa) do filho. Eu estava lá e, mesmo sendo tão nova, pude dividir com ele aquela dor e aquela emoção. Com o passar dos anos ficou até engraçado, pois quem não conhecia a história não conseguiria entender porque eu e o amigo de minha mãe (também meu AMADO amigo) tínhamos a nossa música. Até porque sua letra não conta nada do que vivemos juntos... mas era Dora a nossa música (consigo ouvir sua voz agora), por ter sido pra mim, e exatamente esta, a primeira música após todo aquele mergulho no escuro que foi perder seu filho.
Desde que conheci o Negão (e isso é mais da metade do tempo que vivi até hoje) só enxergava nele generosidade. Ele era aquele amigo que me chamava de filadaputa toda vez que demorava de ir em Itabuna, ou ia e não o avisava. Mas era também o cara que quis me tirar de uma tristeza profunda tentando me ensinar a tocar violão. A parte do violão não deu certo e talvez nem ele acreditasse que o violão tira a tristeza, já que seu som mais bonito sempre saía das músicas de lamento. Americano era a presença compulsória (e sempre agradável) nos festejos lá de casa. E também a mão amiga. E também o cara que me dava bronca por eu ainda dirigir sem habilitação. E também o que dizia à minha mãe que eu era a filha perfeita.
É triste demais saber que o Negão morreu. Só consegui lembrar que o prometi que ligaria quando chegasse e o tempo foi curto demais. Foi uma dor sem tamanho me dar conta de que não haverá uma próxima vez, um próximo telefonema em que ele me chamará de Ninha filadaputa e depois dirá que está com saudade. É mais triste ainda saber que não terei mais com quem recitar o Soneto do Amor Total naquela combinada paradinha quando você tocava o Samba da Benção. Que não o ouvirei mais tocando e cantando lindamente Eu e a Brisa ou parando entre os acordes da música pra contar um causo.
São poucas as certezas, meu amigo Americano, que ainda carrego nessa vida. Mas ontem me deparei com uma delas: onde quer que vá a sua alma, ela levará consigo a MÚSICA.

A benção, Negão!
Amo você.

Ísis, 04/10/2010 - 09:14h. (escrito no trabalho)

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